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Eduardo Andrade

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December 20

Da Boca do Povo

 Da Boca do Povo

Autor: Eduardo Andrade

O centro de Belo Horizonte estava uma verdadeira confusão.

Um homem ameaçava pular do topo de um prédio.

Na esquina um vendedor de frutas, deixou uma senhora com o dinheiro na mão e saiu para ver o fato inusitado. Lá do alto do edifício o homem gritava alguma coisa incompreensível.

Um grupo de jovens vestidos em uniforme de colégio, parou para observar a cena.

Um velhinho que acabara de sair de um banco, meteu um pacote de dinheiro no bolso e aproximando-se de uma senhora, que parada olhava para cima meio extasiada com a boca aberta, comentou:

— Moro nesta cidade a 50 anos e sempre vi alguém querendo virar passarinho neste prédio. Até parece maldição. Então a mulher falou de um jeito triste e sem vida.

— Por que será que eles, os suicidas, adoram este lugar?

A pergunta ficou no ar, quando o velhinho abriu a boca e deixou cair a dentadura branca feito porcelana chinesa.

Nisto o grupo de jovens descontraídos, começou a gritar em coro: “Pula, Pula, Pula...”

No cruzamento da esquina os carros começaram a parar, businas pipocavam por todos os lados, de toda altura e de todo tipo. O semáforo ficou verde, no entanto os motoristas que viam a cena desciam dos seus carros para observar a iminência de um suicídio. Lá do alto, o homem levantou um braço onde exibia um cartaz com a foto de uma linda morena de biquíni.

O vendedor de frutas, falou com a senhora que permanecia segurando a nota de dez reais, com um ar abobalhado.

— Eu conheço aquele cara! Ele logo de manhã passou por aqui e me contou que sua namorada tinha resolvido posar nua para uma revista masculina, por isto ele ia se matar...Eu não acreditei, mas...

— Não acredito que só por uma bobagem desta, ele vai atentar contra sua própria vida, ó meu Jesus, que mundo cão. Disse a senhora com o dinheiro na mão. (êta riminha pobre).

A bagunça aumentava ainda mais. Um carro da policia chegou com sua sirene no limite que os tímpanos podiam suportar, piscando suas luzes frenéticas, como se houvesse um show de rock na manhã tropical.

De dentro pularam quatro policiais com cara de bulldogs.

O cara no alto do prédio havia acabado de sentar-se na beirada de concreto, balançando suas pernas gritando algo ainda mais incompreensível ainda. Um dos policiais olhando para cima com ar desconfiado, falou:

— Mais um louco ou drogado. Merda de mundo fodido que agente tem que enfrentar no dia a dia. O outro policial com cara de doutor vidente, disse:

— Eu conheço aquele individuo. A mãe dele era uma prostituta que se casou com um padre e ele deve estar com medo de se transformar em lobisomem, nas noites de lua cheia. Melhor a morte que viver assim, não é? (Este é da pá virada, não?)

O cara lá no alto, levantou-se, e ficando em pé na beirada de concreto, tirou a camisa e ficou girando-a sobre a cabeça, como se estivesse com uma corda pronto para laçar um boi selvagem nas nuvens. Então, pulou para trás e saiu do campo de visão da multidão lá embaixo.

Havia um burburinho.

Uns conversavam com os outros e os outros conversavam com todos.

Um vento suave balançou as folhas das árvores, fazendo cair folhas de outono.

Os minutos pareciam paralisar o momento.

Um pequeno fio de eternidade unia todos naquela praça faminta de circo.

Nisto, deu para perceber o sujeito lá em cima aproximar-se correndo e parar na borda do céu, lançando a camisa branca no vácuo.

A camisa veio descendo lentamente, respeitando as correntes de vento que percorriam o centro da cidade. A mulher, ainda com o dinheiro estendido na mão, olhando para cima e sem enxergar direito, pensou que o suicida havia pulado. Imediatamente, caiu no chão desmaiada, dura feito uma pedra de sabão. O vendedor de frutas para não perder a oportunidade e acrescentar mais um pouquinho ao seu lucro, agarrou a nota da mão dela e enfiou disfarçadamente no bolso, sem pensar em troco. Um dos policiais vendo aquilo veio correndo e falou:

— Você roubou o dinheiro desta senhora aqui no chão! O ambulante, com cara de pura inocência, retrucou:

— Não roubei não dotô, ela estava me devendo...olha a fruta lá na outra mão dela! O policial pareceu concordar e abaixando-se, colocou a mão em sua fronte para examiná-la. Levantou-se, e um tanto preocupado, acionou o rádio para chamar uma ambulância. A cada minuto, juntavam-se mais alguns transeuntes a multidão. De uma igreja, que ficava do outro lado da avenida, começaram a sair os fieis atraídos pela algazarra. O padre saiu primeiro e ao ver o homem lá no alto, fez o sinal da cruz para afastar o velho demônio, e ajoelhou-se. Lá no topo o homem parecia possesso e insano e voltou a gritar coisas, que da altura não chegavam até o povo lá embaixo. Uma senhora que tinha saído logo atrás do padre, meteu a mão em uma bolsa preta velha e carcomida que carregava sob o braço e tirando de dentro uns óculos, com lentes mais grossas que fundo de garrafa, colocou desajeitadamente a geringonça na cara e ficou meio míope olhando para o céu. Ao localizar o jovem olhou para amiga ao lado e sapecou uma frase curta e lamentosa:

— Oh minha virgem Maria. É o Toninho!!!

— Toninho qual? Perguntou sua amiga.

— Um vizinho do meu apartamento que tem problemas com drogas... coitado. A mãe não sabe mais o que fazer com o menino. Ela me disse que ele está até roubando para usar seu “braseado”.

— É isto que o mundo virou, amiga. A humanidade não tem futuro.

Drogas, violência, fome, guerras...o apocalipse está chegando...

Trepado no último andar o rapaz andava sobre o concreto com apenas uma perna, parecendo o saci-pererê; e mais uma vez pulou para trás saindo do campo de visão da multidão.

Nisto, voltou a aparecer e com um sorriso demoníaco nos lábios, pulou de ponta cabeça mergulhando no vazio, feito um passarinho sem asas. A multidão em choque e atordoada deixou escapar um som gutural, abafado e mórbido de espanto e incredulidade, mais ou menos assim: Ôooooooooooo...

O cara veio caindo, caindo, caindo...

A multidão em conjunto pensou: “Quando chegar ao chão será apenas uma massa disforme de sangue, carne e ossos triturados no asfalto quente!” Outros na multidão pensavam: “Tudo faz parte da vida, não é? E, ninguém vai se importar com mais um filho da... , louco, suicida e vagabundo que está querendo retornar para o seu começo...

Quem vai se importar com o sangue pela calçada?

Ninguém!

Sangue e mijo são a mesma coisa na cidade grande.

"Tudo faz parte da vida irmão".

Porém uns mais atentos, com visão de águia, perceberam que havia um rabo no rapaz.

E ele veio caindo em câmara lenta.

Muitos com os olhos fechados se benziam, inclusive o velho padre ajoelhado sobre sua batina branca e sagrada. E o jovem veio flutuando pelo espaço na iminência do seu fim.

Porém ao chegar a uns três metros do chão, uma corda elástica que o prendia por debaixo dos braços, arremessou-o para cima novamente.

Ele estava preso por uma corda de bungee junping.

E voltou novamente para o céu, balançando feito um iô iô humano.

Quando finalmente a corda parou de retesar-se, ele ficou dependurado, balançando como as folhas de uma palmeira imperial.

Na mão esquerda um cartaz onde se lia: Beba Star Light, A cerveja mais nova, mais leve e mais gostosa do Brasil.

Na mão direita ele tinha uma latinha, que ficou bebendo tranquilamente como se estivesse sentado na areia de uma praia no sul da Bahia, olhando as garotas passando de biquíni e ele comendo camarão.

Até onde vai chegar a propaganda destes fantásticos homens da publicidade, para atrair a atenção do consumidor e fazê-lo gastar até o último centavo disponível?

Isto, ninguém sabe...

November 01

Halloween

                                                       Halloween

Autor: Eduardo Andrade

Ontem no dia 31/10/2008, no Dia das Bruxas, quando os antigos Celtas que viviam na Irlanda faziam oferendas aos mortos, aos espíritos e a todas as divindades, para agradecer a boa colheita do final do verão, eu tive um sonho, onde uma entidade me disse: “Os Seres Humanos são apenas bolinhas de sabão voando pela eternidade e estourando com o passar de um ínfimo tempo!”

 Então no sonho eu quase enlouqueci.

Sonhei com minha avó, meu tio, meu avô, meu pai  e todos que foram dar um passeio pela eternidade.

 Acordei suado e me perguntei: Onde estão todos?

Agente vai vivendo e ficando sozinho. Cada um sonhando seus sonhos e vivendo sua vida e ganhando e perdendo. A perda mais sofrida é a perda dos nossos entes queridos. Esta fica cravada na memória feito um prego incandescente de fogo.

Mas agente também ganha. Hoje tenho minha filha e meus sobrinhos que vão fazer o futuro e me dão alegria força e fé.

Eu amo todos!

Isto é o que realmente tem valor; o amor incondicional pelas pessoas com quem os laços nos unem.

E a vida continua... Agente remando um barquinho nas ondas bravias da nossa existência.

E com  Luz, Paz e Amor, um dia agente chega lá.

 Mas lá onde?

Quem sabe?

Sei lá!

Talvez Deus, numa bela tarde cheia de sol, nos dê uma linda resposta de transcendência!

"Os Bichos vivos, são bolinhas de sabão que estouram com o tempo, porém, os espíritos das bolinhas de sabão, continuam...".


Esta é minha pequena homenagem, a todos que pegaram um trem e partiram para as estrelas...

 Eduardo Andrade...




July 08

O Sonho de Voar

O Sonho de Voar

 

 

O Sonho de Larry Boyhood era voar.

Quando ele se formou no segundo grau, juntou-se a Força Aérea Americana, na esperança de tornar-se um piloto.

Infelizmente foi desqualificado por problemas de vista.

Quando finalmente foi dispensado, não conseguia se satisfazer apenas observando aviões a jato passando pelo céu, no fundo do seu quintal.

Um dia, Larry, teve uma ideia brilhante.

Ele decidiu voar.

Foi a uma loja local que fornecia suprimentos para a Marinha e Aeronáutica e comprou 45 balões atmosféricos e vários tanques de gás hélio.

Os Balões atmosféricos, quando totalmente cheios, medem mais de 1,20 metros de comprimento. De volta para casa, Larry amarrou os balões, com segurança, a sua cadeira de jardim, ancorou a cadeira no pára-choque de seu jeep e inflou os balões com hélio. 

Subiu para um teste, enquanto "aquilo" estava apenas a alguns centímetros do chão. Satisfeito, pois funcionou, Larry empacotou vários sanduíches, seis caixas de cerveja, carregou sua arma - pensando que era só atirar em alguns balões quando fosse hora de descer - e voltou para a cadeira flutuante.

Ele se amarrou, junto com sua arma e as provisões.

O plano de Larry era flutuar preguiçosamente a uma altura de uns 10 metros no fundo do seu quintal, depois que cortasse a corda da âncora e voltar para o chão depois de algumas horas.

Mas as coisas não funcionaram exatamente deste jeito...

Quando ele cortou a corda que amarrava a cadeira de jardim ao seu jeep, não flutuou preguiçosamente na altura que pensava.

Ao invés disto, ele foi arremessado rapidamente para o espaço, como se fosse atirado por um canhão.

Ele não ficou a uma altura de 10 metros, ou 50 metros.

Depois de subir... subir...subir... ele ficou nivelado a uma altura de 3.300 metros.

Naquela altura, ele não podia correr o risco de atirar em nenhum dos balões, pois a carga poderia ficar sem equilíbrio e assim, estaria realmente em apuros.

Portanto ele ficou lá, levado pela corrente de vento, com frio e assustado, por mais de 14 horas.

Foi então que realmente ele imergiu em um grande problema, pois foi levado pela corrente de vento para o corredor primário de aproximação de aeronaves do Aeroporto Internacional de Los Angeles.

Um piloto da United Airlines foi o primeiro que viu Larry.

Ele entrou em contato com a torre e descreveu que estava acontecendo: "Estou vendo um cara sentado em uma cadeira de jardim, com um revólver na mão".

O radar confirmou a existência de um objeto flutuando a 3.000 metros sobre o aeroporto. Internacional de Los Angeles.

Os procedimentos de emergência foram acionados e colocados em alerta total e um helicóptero foi enviado para investigar o assunto.

O Aeroporto de Los Angeles é perto do oceano.

A noite foi caindo e a brisa costeira começou a soprar.

Isto carregou Larry para o mar, com o helicóptero perseguindo-o.

Várias milhas depois o helicóptero conseguiu alcançá-lo.

Uma vez que a equipe determinou que Larry não era perigoso, começaram a tentativa de aproximação para o resgate, mas o vento forte das lâminas do helicóptero,  empurravam Larry para longe, sempre que eles chegavam perto.

Finalmente, o helicóptero subiu em uma posição de vários metros acima de Larry e lançou uma corda de salvamento.

Larry agarrou a corda e foi trazido de volta para a costa.

A manobra difícil foi executada sem falha pela tripulação do helicóptero.

Tão logo, Larry foi trazido para a terra, foi preso por membros do Departamento de Policia de Los Angeles, por violar o espaço aéreo do aeroporto. 

Enquanto era levado algemado, um repórter enviado para cobrir o resgate, perguntou por que ele tinha feito aquilo.

Larry parou, virou, suspirou e respondeu com sangue frio:

 "Um homem não pode apenas ficar sentado aqui no chão observando os aviões voando lá no céu."

 

Traduzido e Adaptado por Eduardo Andrade


April 28

Terra Viva (Visão Xamânica)

                                         TERRA VIVA  (Visão Xamânica)

 

Autor: Eduardo Andrade
 

 

        O Velho da Montanha tinha um cachorro; para ser mais exato, era uma linda cachorra da raça pastor alemão. O pelo do animal era lindo, sedoso e oleoso feito cabelos de índias, bem tratados. Mas como acontece com todos os cachorros desta raça, ela tinha a saúde muito frágil.

 Um dia o velho levantou cedo e saiu da sua casa de madeira para respirar o ar puro das montanhas pela manhã. Ao sair, deparou com sua bela cachorra sorridente. Ele percebia que aquele animal era melhor do que muito ser humano, só não sabia conversar.

 Talvez fosse um pouquinho de loucura de sua parte, pois muitas vezes ele sentia o pensamento daquele animal.

 Era como se ela pensasse sempre que o via:

 “Meu amigo está chegando!”

 Não foi apenas uma vez...

 Se tivesse sido apenas uma vez, poderia ser fruto de sua imaginação, coincidência ou apenas divagação mental, de um homem que vivia sozinho no meio do mato, ouvindo apenas o murmúrio da correnteza nos córregos, o canto dos passarinhos e o assovio dos ventos passeando por entre os troncos das árvores.

 Ao terminar o pensamento, ele percebeu um movimento brusco que a cachorra fez em volta de si mesma, como se quisesse pegar uma mosca invisível.

 Ele pensou: “Ela deve estar brincando!” — Porém a cachorra continuou aquele movimento estranho.

 O velho saindo de sua casa na manhã fria foi caminhando em direção da cachorra.

Ao aproximar-se, notou um grande buraco embaixo do rabo dela, por onde vertia sangue.

— Vem cá. Ele chamou-a como se desse uma ordem.

O robusto animal aproximou-se.

Ele segurou o rabo do bicho levantando-o e expondo o grande ferimento.

“Bicheira” — Pensou.

 “Como surgiu tão de repente do nada...” Continuou a pensar.

 “Amanhã vou a cidade, passo na oficina de carros, compro um óleo queimado e vou debelar esta maldita doença, trazida pelas moscas.”

O que ele não sabia é que alguém vestido de negro com uma foice na mão rondava aquele lugar.

 

        A noite chegou envolvendo todo o ambiente.

A noite era linda no alto das montanhas. O velho sentado sozinho no batente da porta olhava as estrelas no céu azul-escuro e agradecia a dádiva divina de poder sentir a sístole e a diástole dando ritmo e bombeando o seu sangue que corria por dentro das suas velhas veias.

 

 A cachorra aproximou-se e latiu num gemido.

 Ela nunca tinha latido deste jeito. Mais uma vez ele sentiu aquela coisa dizendo para ele:

— Estou doente, muito doente.

 

Ele levantou-se inquieto e pensou que deveria ter ido a cidade logo pela manhã.

Por que  deixou para o próximo dia?

 

 Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje, afinal  de contas, pode ser tarde demais.

 

Aquela coisa resmungando dentro dele estava tirando a sua paz de espírito.

 

 Havia alguma coisa sofrida tirando o seu sossego.

 

 Seria a cachorra?

 

 Foi em direção do fogão de lenha e juntando algumas brasas com um pedaço de pau, começou a soprar dando vida ao fogo.

Pegou um bule velho com uma alça adaptada de madeira e colocou o café para esquentar. Virou as costas e foi sentar-se em um banquinho de jacarandá.

 Meteu a mão no bolso, tirou um fumo de rolo e colocou metodicamente sobre a mesinha secular.

Com calma agarrou uma faca que tinha o cabo de chifre de boi e pensou nas histórias que aquele instrumento tinha para contar. Ela era uma herança de seu avô. Uma relíquia que já tinha ido até a guerra do Paraguai, quando a matança de mulheres e crianças tinha enchido de orgulho toda uma nação e foi um fator decisivo para a derrubada do Império e a criação da República.

 Um pensamento fulminante veio para colocar fim ao seu lamento:

 “Eles que começaram”.

“Eles que provocaram.”

“Ele, Solano Lopez, queria ser o imperador das Américas.”

 

“ Todo bom mineiro dá um boi para não entrar em uma briga, mas se entrar, então dá uma boiada inteira para nunca mais sair dela.”

 

Com firmeza em sua mão, começou a raspar a única palha de milho que restava. Depois de deixá-la preparada, picou o fumo e com maestria enrolou o cigarro. Foi ao fogão, encheu uma caneca de café quente, forte e amargo e num longo gole, o sentiu descer queimando pela garganta.

 

 Café forte fazia-lhe sentir jovem novamente.

 

Depois de sorver todo o café, pegou o cigarro e acendeu em uma brasa e voltou para a porta em frente da casa sentando-se no batente de madeira. A cachorra de longe acompanhava os seus movimentos com os olhos inteligentes.

 

 Ele sentou, matutou e novamente uma conversa tocou seu cérebro:

 

— Vou morrer, estou mal, o pior possível. Sinto os bichos corroendo minhas entranhas. Eles estão acabando comigo...

 

O pio de uma coruja avisou-lhe que já era hora de dormir. Quem sabe se o sono não lhe traria um belo dia cheio de sol e bons pensamentos. Afinal ir a cidade sempre era uma ótima curtição.

 Ele não sabia que um pesadelo estava porvir.

 

 

 

        O sonho começou com sua cachorra correndo brincalhona por entre as árvores da floresta atlântica. Ele no sonho estava jovem, cheio de vigor e energia.

 Com sua espingarda no ombro andava para dentro da mata para caçar veados, porcos do mato, tatus, pacas ou qualquer outra espécie comestível.

 Até mesmo onça pintada ele matava para arrancar o couro e vender na cidade.

 

 De repente saltou em sua frente um enorme animal.

 Ele imediatamente, num reflexo atirou.

 Era sua cachorra que ele havia acertado.

 Correndo desesperado, ao aproximar-se viu que o lado esquerdo do animal pegava fogo.

 Indo em direção de uma árvore, cortou um galho cheio de folhas e voltou sobre sua sombra tentando apagar as labaredas.

 Era tarde demais...

 Quando olhou a cachorra estava em pé com os olhos vermelhos pingando sangue.

 O fogo tinha consumido-lhe todo um lado.

Ela estava dividida em duas bandas exatamente iguais.

 De um lado o seu pelo estava lindo e sedoso como sempre tinha sido.

Do outro lado dava para ver sua caveira expondo os seus ossos brancos de marfim.

 

 O velho num salto semi-acrobático, pulou do seu catre e respirando fundo limpou o suor que lhe empapava o peito de cabelos quase que totalmente brancos.

 

 “Graças a Deus.” Pensou com alívio.

 Foi só um sonho!

 

Voltou a sentar-se sobre o lençol e talvez agora não conseguisse mais dormir.

 Recostou-se e ficou pensando na vida.

 

 Sua mulher, mãe de seus dez filhos tinha morrido a muitos anos, por causa de uma complicação no parto do que teria sido o seu décimo primeiro filho.

 

 Os dois tinham sido enterrados na mesma vala, mãe e filho.

 

 Depois ele nunca mais se engraçou com mulher nenhuma.

 Vez ou outra quando a fraqueza de sua carne pedia, ele ia à cidade na casa da luz vermelha comer seu frango ensopado predileto, feito pela dona que dirigia a espelunca.

O frango dela como desculpa, atraia todos os homens da região.

Prefeitos, Vereadores, Fazendeiros, Canoeiros, Caminhoneiros, etc.

 

. Toda estirpe de gente já havia provado as delicias daquele prato, acompanhado pela cerveja sempre gelada e o perfume barato das moças daquele antro.

 

Nisto a manhã chegou.

 

 Ele levantou-se arrumou sua bagagem num alforje aprontando para ir a cidade.

Primeiro iria ao rio que passava perto de sua cabana nas montanhas, para tirar o gosto da noite, do corpo.

 

 Abriu a porta e a primeira coisa que viu foi sua cachorra caída no meio de uma poça de sangue.

 Havia sangue por todos os cantos, no tronco das árvores, no chão de terra, no batente da porta, no caminho que dava para a estrada.

 Parecia ter havido uma carnificina.

 Ele aproximou-se e com os olhos nadando em lágrimas, começou a chorar.

 Era um choro que partia lá do fundo da alma.

 A floresta tinha virado um imenso cemitério.

 Tudo parecia chorar.

 Os bichos, o vento, o sol faziam coro com ele naquela manhã perdida no fundo dos tempos.

 “Os homens não choram, deixe isto para as crianças.” — Tocou-lhe um pensamento.

 

Amargurado, ajoelho-se e pediu a Deus que cuidasse daquele espírito animal, tão lindo, tão dócil, tão inteligente, tão amigo, tão tudo...

 O melhor amigo do homem, sua única companhia em tantos anos de retiro quase espiritual, tinha ido embora sem nem mesmo dar um latido de despedida.

 

 Neste exato momento estava se sentindo tão velho, quase como se tivesse a mesma idade da terra.

 Sufocado pelo silêncio, levantou-se.

 

A vida continua...

 

Procurando entender um sentido para morte, em uma divagação filosófica, entendeu que ela era uma parte da vida e que talvez a vida não tivesse significado algum se não houvesse esta tétrica palavra.

 

 Sentindo-se extremamente cansado, entrou em seu barraco.

 

Não havia mais necessidade de ir a cidade, a não ser para encher a cara de cerveja e afogar suas mágoas no esquecimento provocado pelo álcool.

 

 Deitou-se novamente e num instante voltou a sonhar.

 

 No sonho o mundo parecia ser cheio de luz, uma luz brilhante indescritível em palavras.

 As plantas os animais e todos os elementos da natureza pareciam comungar em conjunto com a força que move o universo.

 

Tudo tinha ligação entre si, todas as coisas eram interdependentes.

 

Da pequena pedra no fundo do rio, até o brilho das estrelas mais distantes eram ligadas entre si.

 

Uma chama.

 

 Homens, pedras, plantas e água eram seres vivos e tinham todo respeito do criador, como se fossem iguais.

 

O sonho desvendando-lhe os mistérios continuou...

 

 Um carro de boi vinha pela estrada, sobre ele um jovem forte de chapéu e bem aparentado, com uma vara tocava os bois pela trilha.

 

 Na carroça uma linda mulher jovem e grávida estava sendo conduzida para a cidade para dar a luz ao seu primeiro filho.

 

 O velho sentado na porta via a sua cachorra morta e a carroça simultaneamente.

 

 O ruído da roda do carro de boi penetrava-lhe afiado, enfiando-se pelos ouvidos adentro e despertando-lhe o cérebro.

 

 Era um sonho tão real...

 

 Ele olhando aquela cena, percebeu que um fio de ouro começou a sair de sua cachorra morta.

O fio começou a crescer insuflado de luz e foi em direção da jovem e bela mulher grávida, penetrando-lhe o ventre.

 

 Ele viu a mulher sorrindo.

 

Um sorriso cheio de felicidade saia pelos seus dentes brancos, feito as neves eternas do Everest.

 

 O velho agora compreendia o que ligava todos os seres.

 

O jovem mancebo olhou para trás e viu sua mulher contorcendo-se de dor.

 Pulou voando da carroça e foi atendê-la no trabalho de parto.

 

O velho acordou num sobressalto, ao chegar da janela lateral, ouviu um choro de criança.

O pai segurava uma bela menina em seus braços.

 A mãe suada, não sabia se chorava ou se sorria.

 

 O velho sorriu...

Por fim entendia que os pássaros, as árvores, as baratas e as moscas tinham uma sabedoria intrínseca e natural.

 A sabedoria que os homens buscam nos livros e nas escolas é ensinada pela vida aos pequenos seres que se entrelaçam na dança da existência.

 

O velho finalmente compreendeu o significado de tudo.

 

 Finalmente ele poderia morrer tranqüilo e feliz, pois sabia que a Terra em sua totalidade, era um ser vivo.

                                                                   



A Velha e a Morte

                                      A Velha e a Morte

 

Autor: Eduardo Andrade         

 

    A velha sentada em sua cadeira de balanço, segurava com suavidade as agulhas de crochê. As mãos trêmulas pela fadiga provocada pelo tempo, não obedeciam aos seus comandos. Enfim, no fim da vida a fraqueza corroia-lhe por dentro extraindo-lhe as últimas forças dos ossos.

 Mesmo assim tinha sido uma mulher total.

 Filha, Mãe e Avó.

 Tinha sido grande em latitude e longitude; do tamanho do mundo.

Apesar de nunca ter saído daquela fazenda no sertão, tinha sido feliz.

 A vida não tinha sido fácil para ela.

 Depois de muitos anos de fartura, as coisas foram piorando, piorando e piorando, o gado morrendo a plantação secando e então com os olhos cheios de água, viu os seus filhos irem embora no último ônibus que passou por aquelas terras inóspitas.

 Tanto tempo, que ela havia perdido tudo aquilo na memória.

 Eles foram em busca de uma vida melhor no sul próspero, distante e feliz...

“A felicidade é o que todos buscam, não é?” Exclamava!

Por isto, ela não lamentava!

 “Mulheres têm que ser fortes”, ensinou sua mãe.

“A vida só vale a pena se você admitir como ela se apresenta” Ensinava seu pai.

Deste jeito foram passando tantos anos, que até pareciam Eras.

E o verde foi caindo das árvores...

Agora seus olhos ressecados pelo tempo, pouco enxergavam.

Olhando por baixo dos óculos de aro fino, enxergou-se criança novamente, brincando na areia em frente da varanda de sua casa.

 Aquela menina pequena e linda, com os cabelos dourados feito espiga de milho novo, brotando no calor do verão.

Ciranda Cirandinha vamos todos cirandar.. Bandeira 1. Cabra Cega...Sétimo Céu...

 Brincadeiras de crianças...

De bonecas para bonecas...

Sonhos e ilusões. .

Mas agora, seus olhos não tinham mais o brilho de bolinhas de gude soltas sob o sol da manhã.

Uma névoa tênue feito neblina do inverno, cobriam seus olhos e sua vida.

Sentiu-se correndo feliz dentro de casa, como se houvesse uma infinidade de tempo  para viver e perder.

 Na companhia de amigos e primos, murmurou alguma coisa em vão, num soluço.

 Num alvoroço...

Qual pedacinho do mundo teria perdido?

O que restava da vida, dilacerando os seus últimos momentos?

Suas mãos sujas de areia, segurando as agulhas de tricotar, sentada na cadeira de balanço sacudida pelo vento da tarde, não significavam mais nada.

 Nuvens no céu anunciavam uma tempestade.

O vento trazia a algazarra  das crianças e o latido dos cães das fazendas distantes...

Olhou para o céu e nuvens raivosas, ameaçadoras, passeavam velozmente sobre sua cabeça.

No sertão era assim, ficava muito tempo sem chover e depois chegava o dilúvio...

O momento final...

A morte...

Olhou para a cadeira de balanço e o rosto daquela velha parecia tanto com o seu rosto pequenino e feliz de menina.

 Era como se mirasse em um espelho e atravessasse o tempo em direção de um passado distante.

O cheiro  doce de casca de goiaba cozinhando no tacho de cobre sobre o fogão de lenha, inundava a casa.

Sua Mãe...

Seu Pai...

Sua vida...

Pingos grossos de chuva começaram a cair.

Olhou para um lado e seu pai vinha chegando, montado em um lindo cavalo branco e suado, como se estivesse eternamente procurando-a.

O mesmo cavalo que ele costumava passear com ela na garupa, percorrendo a fazenda nas manhãs de Domingo.

 Da cadeira de balanço onde estava, viu aquele velho homem apear do cavalo indo em direção da garotinha que estava com as mãos sujas de barro.

 Tudo estava perfeito.

Nem os sonhos tinham com o que sonhar.

 O gado pastava ao longo da cerca de arame e madeira e um imenso pomar a se perder de vista, estendia-se como se fosse um paraíso fundindo um sonho com a realidade.

 Mas seu pai havia morrido a tanto tempo...

 Sentada em sua velha cadeira, seus olhos marejaram-se de lágrimas.

A garotinha levantou-se e foi correndo em direção de seu pai na maior felicidade do mundo.

Ao abraçá-lo, sentiu o calor de mil sóis aquecendo-a.

A velha na cadeira estava fria como se passeasse nua nas florestas congeladas da Sibéria.

E pai e filha saíram caminhando em direção da luz.

Luz da Eternidade, luz de uma nova vida.

Aqui na Terra, nada se perde...

 Tudo se transforma.

Agora tudo estava calmo, a lucidez permeava o momento.

Era como se uma paz imensa tivesse alcançado aquela criatura e ela finalmente estava livre para viajar sem fronteiras, por mundos antes só vistos em sonhos.

E a velhinha continuou dormindo em seu sonho eterno de menina.

A morte vestida de criança, tinha acabado de levá-la embora.

A morte tem mil faces...

Cheia de bichos traiçoeiros,

Cheia de faces de velhos, vestindo crianças...

Cheia de crianças transformadas em velhos...

Andando feito fantasmas pelo mundo.

Enfim,

A vida é cheia de centelhas de vida...

E do fulgor inquietante da morte.

                                                  



 
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Olá Pessoal, como eu prometí, publiquei minha pequena história de ficção. Tentei publicar aqui, porém, dava erro de excesso de postagem, então tive que publicar no espaço de blog, logo abaixo. Copie o endereço e cole em seu browser. I hope you enjoy it.
A Huge Hug to Everybody
Merry Christmas & Happy New Year.
Eduardo Andrade.

http://oscisnes.blogspot.com/
Nov. 22

Tempo para Vender.

Estou com tempo sobrando. Tranquei minha matrícula na UFMG por um ano e estou trabalhando à noite. Estava escrevendo só para os meus caríssimos professores, agora voltei a escrever para os amigos. A partir deste mês de novembro, vou começar a publicar uma pequena história de ficção que escrevi para minha filha e para crianças, mas ela pode ser lida também por adultos. Publicarei em dez capítulos, um por semana. Então até janeiro de 2009, teremos Rock N’ Roll,  aqui no meu Blog. (Espero que vocês gostem). Também estou traduzindo um texto maravilhoso de um escritor Norte-Americano, chamado Bill Bryson, retirado do seu livro ainda não traduzido  no Brasil, com o titulo de: Uma Curta História de Quase Tudo. Eu adorei o livro deste cara. Estou traduzindo os melhores momentos do livro. (Este com certeza vocês vão adorar).

So, You Can Keep Comin’ here in my Space.

Eduardo Andrade

Nov. 1

Em que tipo de mídia você quer fazer sua publicidade?
Rádio?
Jornal?
Revista?
Internet?
Panfleto?

Santinho?

Televisão?

Qual Mídia?
Nós temos a solução!!!
Confie-nos sua peça publicitária que
transformaremos sua empresa na galinha
dos ovos de ouro.
Equipe da Agência:
Macacos Azuis Publicidade
email: macacosazuispublicidade@gmail.com
celular: (31) 9148-5550

 

July 18

MAP - Macacos Azuis Publicidade

Macacos Azuis Publicidade é um projeto que eu e alguns
amigos e amigas da FALE, Faculdade de Letras da UFMG,
pensamos para estabelecermos em BH , uma nova agência
de publicidade. O projeto encontra-se em fase de gestação
e vai focar as suas peças publicitárias, nas ironias da vida.
Queremos ver o sorriso no rosto das pessoas!
A Origem do nome vem da Teoria da Evolução das Espécies
de Charles Darwin, a qual afirma, que os homens são    uma
evolução dos macacos. Exames de DNA, confirmam que mais
de 99% do sequenciamento genético dos humanos, em relação
ao dos chimpanzés, é igual.
Ironia, não é?
Então, somos apenas macacos evoluidos.
Evoluidos...
Será? (deixo para você, caro leitor, concluir).

Mas com certeza habitamos um planeta azul.

O primeiro homem, o cosmonauta russo, Yuri Gagarin,

ao ser lançado fora da órbita terrestre, disse extasiado:

“A Terra é Azul!”

Então, podemos inferir:
Somos Macacos Azuis.

 

July 18
Oi Pessoal, tudo legal?

Eu queria que este blog se chamasse Universo Inverso,
ou seja, um mundo ao contrário, de cabeça para baixo, porém,
o sistema do blog não permitiu e eu tive que acrescentar o S.
Deste jeito, ficou parecendo coisa de poeta, mas não é.
Prefiro a Prosa.
June 7
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